A torre
A Lua surgiu resplandecente
no céu de Outubro.
Rosácea, crescente,
como um sonho projectado e
deixando-me pasmado
nas varandas do Castelo,
como um servo extasiado
ante tudo o que há de belo !

E os reflexos baloiçantes
nas ondas que volteiam....

reflectem delirantes
os teus olhos que incendeiam
minha alma , sangue e carne
por infinitos instantes.

       
 
© Val Neto
   
             
 
 
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  O ser tristonho
Ah ! A pena que eu sinto
pelos que falam sózinhos,
através de muitas palavras
que pouco ou nada dizem !

Ah! A pena que eu tenho
dos que só olham para si,
imaginando que o mundo
é só o que lhes interessa !

Ah ! A pena que me invade
quando eu imagino um olhar
fixo e obcecado num ecran
a imaginar que vê a vida !

Ah ! A pena que me toma
quando dedos alucinados
martelam teclas e letras,
a destilar fel amargo,
supondo falar de amor !

Ah ! O ódio que eu sinto
dos que tem tanto tempo
mas que o não aproveitam !

Ah ! O ódio que eu sinto
a olhar do alto das torres
e ver o lixo derramado
flutuar nas ondas revoltas
da praia outrora imaculada !

Ah ! O remorso que eu sinto
de deixar, mesmo por minutos,
a dança das folhas soltas
e leves, embaladas ao vento !

Penso no que falta e no que eu sonho...
Penso no que eu sinto e no que eu posso...
Penso no que sente o ser tristonho...
Será pena de si, será ódio ou será remorso ?

  A viagem continua...
"No Vento tudo se move, mesmo a mais sólida falésia...

O que nos trará o Vento ?"

 

    Há Vida !
Na rede estendido
os olhos fechados
sentidos obliterados
sorriso multifacetado

nos raios calientes
nas faces lunares
nos lugares e gentes
há abutres algures

nas palavras perdidas
nas dunas da praia
na razão escondida
nos motivos da laia

no tempo imparável
no vento irriquieto
no sonho insondável
no som predileto

Há vida na esquina
em cada grão da areia
em cada onda que bate
no dorso de cada baleia

 

Canções ao vento
Das torres engalanadas
lancei as canções ao vento,
na esperança de que me escutavas como quem espreita os pensamentos...

Com elas viajei no tempo,
por sobre as ondas revoltas do mar,
a procurar-te em cada porto e
tendo só por desejo te olhar


como quem mergulha num lago,
como quem só não sabe esperar...
Como se o tempo fosse um meu servo
como se o tempo fosse parar...

Por terras mais que distantes
vaguei sem saber onde eu andava,
como em delírio esfuziante,
como se do vulcão fosse a lava...

E repentinamente a mim eu voltei
Ao ver que a ti eu não descobria….
Por mais distante que eu fosse,
por mais que eu te procurasse...

Percebi que em mim habitavas
e quanto mais de mim eu fugisse
só mais tarde é que tu me encontravas.



Lágrimas e Pedras
Vagam as gaivotas
em vôo, por vezes
razante, sobre o mar...

Varre o vento
a areia revolta
que nos vem flagelar.

Soçobram estrelas
por detrás das nuvens
de matiz cinzenta.

Agita-se a mata,
baloiçam as folhas,
crispa-se o olhar...

Densos pensamentos
de ti me afastam
e me vêm dominar.

Das torres altivas
escorregam silentes
as lágrimas quentes

que na pedra fria
deixam um rastro
só de nostalgia...






O tempo e a falésia

Cala-se o tempo
na falésia imponente.
Rodopia o vento
sobre as dunas da praia.
Recorta as ondas
a nau aventureira.
Aves estranhas
vasculham na areia.
Olhos de lince
espreitam da savana.

Fecunda em meu peito
a semente da dúvida
Perdida em meus olhos
a saudade que idolatra
os tempos de outrora
quando a sombra era rara.
Só dissipa a bruma
com o passar do tempo
A claridade impera
onde a sombra guardara
o sinal de uma força
que o tempo levara.

Saúdo o tempo
que na falésia se cala
pois ele, o tempo
a nós todos abala,
trazendo ao de cima
o que já ninguém via...
unguento que fere
e depois alivia.

         
           
...depois da Torre a viagem continua no